Viva a luta dos trabalhadores de Minnesota contra o ICE!
Domingo, 01 Fevereiro 2026 16:59
"Diz-se na arte da guerra que quem cerca o inimigo e o abate muitas vezes acaba abatido também. Na economia, ocorre um fenômeno análogo: quanto mais os EUA submetem o mundo inteiro à sua dependência, mais eles próprios se tornam dependentes do mundo inteiro, com todas as suas contradições e convulsões iminentes.” León Trotsky. Europa e América, 1926
A ofensiva imperialista se choca com a resistência interna
A ofensiva do Estado ianque contra imigrantes, iniciada no ano passado pelo governo Trump — um aprofundamento das políticas dos governos democratas de Biden e, anteriormente, de Obama — atingiu, em 2026, níveis brutais com os assassinatos à luz do dia de Nicole Good e Alex Pretti em Minneapolis. Isso se agrava com o aumento de assassinatos de imigrantes detidos nos últimos meses. A morte de Good pelas mãos do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) em 7 de janeiro serviu de catalisador para uma mobilização no estado de Minnesota, no meio-oeste americano, que levou cerca de 100 mil pessoas às ruas de Minneapolis na sexta-feira, 23 de janeiro, sob a convocação de uma paralisação total (“No work, no school, no shopping”). O subsequente assassinato de Pretti, em 24 de janeiro, inflamou a indignação de amplos setores da classe trabalhadora, jovens e até mesmo artistas e esportistas. Na última sexta-feira, 30 de janeiro, o chamado à uma greve nacional se espalhou, com paralisações parciais promovidas por alguns sindicatos e grupos estudantis em cidades por todo o país, de norte a sul, de leste a oeste. A situação escalou a tal ponto que as instituições imperialistas e seus partidos políticos acionaram seus alarmes e todos os seus mecanismos para tentar absorver o descontentamento e neutralizar a mobilização. No entanto, o conflito se inscreve na tendência rumo a uma guerra generalizada que está corroendo as bases de sustentação internas do imperialismo estadunidense em seu próprio território. Os enfrentamentos atuais estão abrindo caminho para futuros choques do proletariado contra o seu próprio Estado, e são o palco para uma luta de programas e estratégias na batalha para que a classe trabalhadora dê uma saída revolucionária para a crise do sistema.
Trump e a Crise do Status Quo Pós-Guerra
O último a proferir o réquiem para a chamada “ordem mundial” do pós-guerra foi o primeiro-ministro canadense Mark Carney, na cúpula imperialista de Davos. Porém, Donald Trump já o havia anunciado durante seu primeiro mandato, ao lançar o programa MAGA (Make America Great Again). No final do ano passado, o próprio Estado norte-americano lançou sua política de ofensiva imperialista total, atacando os fundamentos políticos e morais da União Europeia, consagrando seu apoio incondicional a Israel e implementando a Doutrina Monroe 2.0, inaugurada com sua atual intervenção na Venezuela.
Esta crise, evidente no colapso das instituições internacionais (ONU, OMC, FMI/Banco Mundial, UE, OTAN) e das relações entre os Estados, é apenas um aspecto de uma totalidade a qual nós, marxistas, analisamos através do conceito de equilíbrio instável e suas várias combinações, abrangendo equilíbrios econômicos, interestatais e de luta de classes. A ruptura desse equilíbrio está sendo confrontada por Trump e o imperialismo estadunidense com essa linha ofensiva, em um momento histórico preciso, caracterizado pela decomposição imperialista e pela necessidade de completar a assimilação dos ex-Estados operários, principalmente a Rússia e a China. No entanto, essa ofensiva acarreta uma série de contradições internas frente a ruptura desse equilíbrio.
A democracia imperialista amadurece em batidas policiais e centros de detenção
O colapso de todas as cínicas “regras da ordem internacional” estabelecidas pelo próprio imperialismo para tentar manter um certo equilíbrio a fim de derrotar a classe trabalhadora mundial e o bloco dos Estados operários após a Segunda Guerra Mundial, agora substituídas pela imposição da pura e simples relação de forças baseada em antagonismos econômicos, tarifas e, eventualmente (e com frequência crescente), pela força das armas, está gerando uma erosão das próprias instituições da democracia imperialista dentro de suas fronteiras. Essa erosão, que não é nova, levou essas instituições para além de seu ponto de maturação, ou seja, à sua decomposição, detonando os mecanismos de dominação em massa historicamente desenvolvidos pelo imperialismo estadunidense; mecanismos que, não surpreendentemente, serviram de exemplo para o restante dos Estados imperialistas e também, de forma muito limitada, para as semicolônias, com sua farsa de separação de poderes, garantias constitucionais e “vontade popular” expressa nas urnas. Esta não é uma orientação particularmente reacionária da atual administração, mas sim de elementos estruturais enraizados na decomposição do capitalismo como sistema, que lança uma parcela cada vez maior da humanidade na miséria, no desemprego, na migração forçada, na guerra e no genocídio (Palestina).
A atual ofensiva imperialista consiste, em sua essência, no estabelecimento de uma nova relação entre capital e trabalho; assim, juntamente com o verniz democrático da ditadura do capital, o equilíbrio social começa a ruir. O confronto entre as classes fundamentais está posto. As atuais mobilizações e as paralizações parciais nos EUA contra as batidas do ICE e os centros de detenção e, de forma mais geral, contra a brutal política repressiva interna do Estado norte-americano, devem ser entendidas como preparação para essa luta. Para o proletariado, essa luta não pode ter outro objetivo senão a tomada do poder do Estado para oferecer uma saída revolucionária ao equilíbrio instável em crise.
O culto à democracia: um valioso tempo perdido
A atual luta contra o ICE e seus métodos de terrorismo de Estado é um poderoso exemplo para os trabalhadores do mundo todo. Ainda que não plenamente conscientes, os trabalhadores de Minneapolis, Saint Paul e por todos os Estados Unidos estão travando uma luta anti-imperialista, impondo um enorme obstáculo às tentativas de Trump de ampliar seu controle sobre a América Latina, o Oriente Médio, a Groenlândia e, em última instância, todo o planeta. Os métodos de luta nas ruas, a organização da autodefesa, assim como a perspectiva de uma greve geral são elementos-chave no desenvolvimento de um programa de enfrentamento ao Estado imperialista.
A potência da luta fez com que as mediações burguesas tivesses que atuar. É o caso do Partido Democrata, que pretende cooptar as mobilizações, levando-as ao parlamento, a começar pelas negociações sobre os fundos destinados ao Departamento de Segurança Interna (DHS) e pelas eleições de meio de mandato em novembro. À sua esquerda, emergem os setores "combativos" do sindicalismo, como a direção da UAW (automotores), que convoca a organização de uma greve geral... para 2028! Ou o DSA (Socialistas Democráticos da América), que questiona o establishment democrata, mas não só não rompe com esse partido imperialista, como também não oferece nada além de um programa de reformas tímidas para tentar salvar a decadente democracia burguesa americana.
Um programa e uma direção revolucionários
A luta contra o ICE trouxe à tona uma nova geração de lutadores que ensaiam táticas de luta “anticapitalistas”, concentrando suas ações nas empresas que financiam o ICE e a política anti-imigração de Trump, como a rede de hotéis Hilton, que abriga os agentes da “migra”, os restaurantes e lojas que os alimentam, as companhias aéreas responsáveis pelas deportações e os próprios aeroportos. Também boicotam empresas que denunciam imigrantes e cedem suas instalações para as batidas policiais. Essas interessantes iniciativas, no entanto, seriam elevadas à enésima potência sob a direção dos sindicatos desses setores econômicos. Sem mencionar os sindicatos industriais capazes de golpear o aço, o alumínio, o petróleo e a produção automotiva — setores que Trump usa como armas de destruição em massa contra trabalhadores em todo o mundo com sua guerra tarifária e suas intervenções militares (Venezuela). Os mecanismos de autodefesa também poderiam ser fortalecidos por meio de sua estruturação pelas organizações dos trabalhadores. É fundamental a inserção dos sindicatos nos locais de trabalho por meio de delegados e comitês eleitos e com mandato dos membros da base. Para isso, claro, é necessário recuperar os sindicatos e as centrais sindicais das mãos da imunda burocracia sindical imperialista, que observa seus próprios membros serem presos, deportados e até assassinados pelo ICE, sem mover um dedo sequer.
Na América Latina, vista por Trump como o seu quintal, a melhor maneira de apoiar os trabalhadores americanos em luta é enfrentar nossos próprios governos e burguesias, que buscam aprovar o ataque com reformas pró-imperialistas, como a reforma trabalhista e demais reformas de Milei, as medidas de austeridade de Lula e a repressão de Boric, que Kast promete intensificar. O mesmo se aplica ao restante dos países da nossa região.
Não será possível enfrentar a direção imperialista dos sindicatos de mãos vazias; é fundamental construir um partido revolucionário da classe trabalhadora, capaz de dirigir o proletariado em sua ruptura com as instituições e os partidos da democracia imperialista e que se constitua como a seção norte-americana do partido mundial da revolução, a IV Internacional.
Destruição do ICE e de todo o aparato repressivo!
Fora imperialismo da Venezuela, do Caribe e de toda a América Latina!
Fora ianques do Oriente Médio!
Por um governo operário, por uma Federação das Repúblicas Socialistas das Américas!











