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Crise migratória no Norte da África

3 agosto, 2026

Entre quinta feira 30 e sexta feira 31 de julho, uma avalanche humana de aproximadamente 60 mil migrantes, majoritariamente jovens, marroquinos e de outros países da África, irromperam no enclave colonial espanhol de Ceuta, superando a guarda da fronteira por terra e mar. Ao mesmo tempo de escrever esta nota, o saldo de mortes devido à repressão do Estado espanhol e às condições ultra precárias da migração chegava a 67 pessoas.

Entre os elementos que explicam a migração massiva é evidente que o principal é o desespero a que os trabalhadores são lançados do Marrocos e outros países da África frente a degradação de suas condições de vida, produto da putrefação do capitalismo e a espoliação imperialista, agudizadas nos últimos anos pelo avanço das tendências para guerra generalizada. Este último elemento habilita as análises que destacam as manobras da monarquia marroquina, principal aliada de Trump no continente e um dos assinantes dos acordos de Abraão com Israel, que empregaria táticas de pressão migratória para obrigar a Espanha a negociar – e a frágil unidade européia – para fazer avançar a agenda de reivindicações territoriais do país e seus aliados. Táticas similares foram utilizadas pelo Marrocos em 2021. Claro, se trata de táticas criminosas e decompostas de enfrentamento entre Estados burgueses utilizando nossa classe como bucha de canhão.

No entanto, o que o imperialismo tem chamado de “crise migratória” na realidade foi o avanço da juventude marroquina sobre o território que lhes foi roubado pela Espanha, que é uma ação enormemente subversiva, que provocou o desespero e o medo da burguesia imperialista, preocupada porque isto não se converta em um exemplo para ser tomado pelos jovens operários de outra colônias e semicolônias.

A existência de Ceuta, junto com Melilla e outros 3 territórios sob soberania espanhola na África, é uma excrescência colonial. Estes territórios são utilizados para o controle das rotas comerciais e dos fluxos migratórios a serviço do imperialismo europeu. E são uma mostra da decadência da união capitalista da Europa, projeto que caminha a cada passo para uma crise mais profunda. A mesma crise em Ceuta produziu todo tipo de protestos entre os membros da UE, que não querem nenhuma solidariedade na hora de se enfrentar com a “questão migratória”, salvo na intervenção da Frontex, o serviço migratório continental, que podemos descrever como o ICE (a infame polícia migratória ianque) da UE. Na próxima terça-feira, os ministros do interior da UE realizarão uma reunião para tomar novas decisões, que seguramente continuarão o curso de endurecimento das medidas anti-imigração que estão definindo o grupo nos últimos anos.

No sábado 1/08, Pedro Sanchez, presidente do governo espanhol (PSOE), compareceu em Ceuta, não sem antes enviar o exército e as forças repressivas nacionais para aplicar mão dura. O operativo repressivo conseguiu “convencer” a maioria dos migrantes voltar ao Marrocos “voluntariamente”, frente a falta de atenção sanitária básica, a repressão e as zonas liberadas para a ação dos grupos de choque nacionalistas pró-espanhóis. A crise não está fechada, frente à perspectiva de que novas irrupções rompam a tensa calma habitual.

A crise capitalista, com um avanço acelerado da decomposição, o giro para a economia de guerra na Europa, a decomposição dos Estados artificiais do pós-guerra na África, a saída das forças militares das ex-metrópoles em zonas determinadas como o Sahel, o peso da influência econômica da China e militar da Rússia (através do grupo Wagner) definem a dimensão da atual crise em Ceuta, uma das duas fronteiras terrestres entre o continente da outrora opulência capitalista, em franca decadência, e o continente africano, primeira vítima da bandidagem imperialista moderna.

Nós, revolucionários internacionalista devemos tomar uma posição de classe, lutando pelo fim de todo vestígio colonial na África e em todo o mundo. Fora Espanha e suas tropas do Marrocos. Mas não é a Monarquia de Mohamed VI nem a sub-burguesia semicolonial marroquina, ligada por mil laços ao imperialismo europeu e ianque e ao sionismo, quem pode dar uma saída para a classe operária e sua juventude frente às penúrias geradas pela crise. Somos nós, os próprios trabalhadores os que devemos forjar a unidade internacional de nossa classe para enfrentar os Estados imperialistas europeus, nos organizando em sindicatos únicos por ramos, onde ingressem sem restrições todos os imigrantes de cada ramo.  As organizações operárias poderão impedir com sua luta que a imigração irregular na Europa seja utilizada para nos fazer competir entre trabalhadores para rebaixar os salários e as condições de trabalho e de vida em geral. Abaixo as reformas trabalhistas impostas por todos os governos com a receita do FMI. A propriedade privada imperialista se conformou historicamente não só a partir da exploração sobre a classe operária europeia, senão também em base a espoliação das colônias e semicolônias.

O capitalismo mundial tem sua origem manchada com o sangue das invasões europeias sobre a África, Ásia e América. É justamente esta espoliação a base da construção dos “Estados de bem-estar” do pós-guerra, hoje em decadência, e a sustentação dos privilégios da aristocracia operária e cúpulas sindicais dos países imperialistas. Por isso, na Espanha toda luta do ativismo operário contra suas direções e encaminhada para recuperar os sindicatos deve partir da luta irreconciliável para que os sindicatos levantem como programa a devolução imediata dos territórios roubados do Marrocos e o fim da opressão imperialista. Lutemos contra as divisões legais impostas entre nacionais, migrantes, residentes, etc. e contra as expulsões sumárias (no calor do momento) dos operários desesperados que fogem da repressão e miséria que a própria espoliação imperialista gera em seus países de origem. Dissolução da Frontex e seus controles de fronteiras, dissolução das forças repressivas que garantem a ordem burguesa e a propriedade privada dos meios de produção. Piquetes de autodefesa organizados pelos sindicatos para enfrentar a repressão. É a classe operária, começando pelos trabalhadores da própria Europa, a que pode impor, com seus métodos como as paralisações e a greve, a consequência destas demandas, avançando no controle operário da produção. Para tudo isso, será necessário recuperar os sindicatos das mãos da burocracia sindical que vem funcionando como pilar do Estado espanhol e demais estados imperialistas.

A luta de classes não se detém, as fronteiras nacionais são um freio absoluto ao desenvolvimento econômico e social da humanidade. Por uma Federação de Repúblicas Socialistas como forma política da ditadura proletária e sua extensão internacional. Para levar à vitória este programa, se impõe a reconstrução da IV Internacional, o partido mundial da revolução socialista, e suas seções nacionais.

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