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Acordo EUA-Irã: Trump paga para sair do estreito

18 julho, 2026

23 de junho de 2026 

Na quarta-feira, 17 de junho, Trump e o presidente iraniano Masoud Pezeshkian assinaram remotamente um “Memorando de Entendimento” para encerrar a guerra iniciada pela potência imperialista e Israel em 28 de fevereiro. Trump assinou o documento no Palácio de Versalhes, durante a cúpula do G7, justificando-se com uma infeliz comparação com o presidente Herbert Hoover, em cujo mandato teve início a crise de 1929: “Eu não queria ver uma catástrofe econômica. Se isso tivesse continuado, era o que teria acontecido”. A assinatura final era esperada para sexta-feira daquela semana, mas a continuidade da ofensiva de Israel sobre o sul do Líbano levou o Irã a manter o bloqueio do estreito de Ormuz, um dos principais pontos para resolução pelo memorando. Finalmente, no domingo, 21 de junho, negociadores de ambos os lados se encontraram em Lucerna, na Suíça, em uma propriedade do Catar, para formalizar os acordos; ocasião em que ambos os lados adotaram uma retórica palatável para seus respectivos públicos. O vice-presidente norte-americano, Vance, enfatizou a importância do retorno dos observadores da OIEA ao Irã para verificar o cumprimento do descarte do urânio enriquecido e do controle de suas instalações nucleares. Os iranianos estipularam como condição o levantamento do bloqueio aos seus portos, a remoção das sanções às suas vendas de petróleo e o descongelamento de seus ativos em bancos do Catar (The Guardian, 22/06). Ao longo do dia, foi confirmada a passagem de quatro petroleiros pelo estreito.

 

Reconhecimento do fracasso

O primeiro elemento que chama a atenção de todos os analistas é que, com este acordo, Trump confirma o fracasso da ofensiva lançada ao lado de Israel em fevereiro. Além disso, trata-se de um fracasso custoso, não apenas pelos bilhões de dólares investidos em material bélico contra os trabalhadores e o povo do Irã, mas também pelas consequências do duplo bloqueio do estreito de Ormuz para toda a economia mundial. Essas consequências econômicas atingiram duramente os aliados dos EUA e principalmente dentro da própria metrópole imperialista, pressionando o governo a tentar resolver o problema antes que a inflação e a recessão iminente destruam qualquer chance de os republicanos manterem o controle do Congresso após as eleições de meio de mandato em novembro.

 

Uma das principais contradições do memorando, e o que o torna extremamente frágil, é que ele impõe limites à ofensiva militar de Israel contra o Hezbollah e à sua invasão do sul do Líbano. Até o momento da escrita desta nota, permanece incerto até que ponto Israel aceitará negociações entre os EUA, o Irã e o Líbano para resolver essa questão sem a sua participação. Contudo, o caráter burguês reacionário do regime iraniano fica evidente, já que este prioriza seus interesses econômicos como condição real para a implementação do acordo, em detrimento da defesa incondicional da integridade territorial do Líbano, que consta como ponto 1 do acordo e agora está adiada para futuras negociações. Isso não significa que o problema esteja resolvido: vimos os insultos que Trump dirigiu a Netanyahu no momento de avançar com as negociações. Israel está claramente debilitado, e quanto mais encurralada a entidade de ocupação sionista se sentir, mais brutal será sua política colonialista e genocida para defender sua própria sobrevivência.

 

As fragilidades do memorando também demonstram as dificuldades que o imperialismo enfrenta para poder se retirar, uma vez iniciada uma aventura militar. Isso nos leva a analisar a situação mundial de conjunto: para Israel, o ataque ao Irã foi uma ofensiva para tentar sustentar sua difícil posição na região; para os EUA, foi parte de sua política de cercar a China, dentro de sua linha estratégica de assimilação dos ex-Estados Operários. O Irã é um aliado importante da China, em termos geopolíticos e econômicos, sendo um eixo da iniciativa da nova Rota da Seda e um grande fornecedor de matérias-primas, especialmente hidrocarbonetos. O objetivo de decapitar o regime dos Aiatolás para impor um regime “Delcy Rodríguez” nos moldes iranianos, provou ser um erro de cálculo do imperialismo. Trump também não contava com a resistência da população de um país extenso, com uma história de lutas e organização operária e popular. Entendido desta forma, o memorando aparece como o preço que o imperialismo está disposto a pagar para conceder uma trégua naquela frente da guerra generalizada que está preparando para tentar retomar o domínio diante da crise do equilíbrio do pós-guerra e da erosão de sua própria hegemonia, tudo isso sobre a base estrutural da decomposição do sistema.

 

Não há trégua na ofensiva contra a classe operária

A cúpula do G7 demonstrou que o memorando EUA-Irã está longe de ser um apelo à paz. A OTAN e os países europeus aceleram o rearmamento e o militarismo, a guerra Rússia-Ucrânia recrudesce-se, Israel ignora qualquer trégua e avança na ocupação de 70% da Faixa de Gaza enquanto transfere a destruição para o sul do Líbano e Beirute. Acima de tudo, fortalece-se a ofensiva contra a classe trabalhadora, com novos ataques às condições de vida e de trabalho, aumentando a repressão contra os imigrantes, o ataque aos sindicatos (como acontece na Itália com aqueles que se solidarizam com a Palestina) e a ofensiva de reformas trabalhistas e previdenciárias. Nossa classe sai à luta, como mostram a greve geral em Portugal, as ações pela Palestina na Itália, os bloqueios contra o governo Paz na Bolívia e a organização contra o ICE nos EUA.

 

Em uma dinâmica que caminha para uma guerra generalizada, nós, revolucionários, defendemos a derrota do imperialismo contra uma nação oprimida como o Irã, afirmando a necessidade da intervenção de nossa classe com seus métodos, a greve, os bloqueios de carregamentos militares e sabotagem da maquinaria de guerra imperialista. A luta anti-imperialista está hoje, mais do que nunca, indissociavelmente ligada às tarefas socialistas de alcançar uma saída revolucionária e proletária para a situação.

 

No Oriente Médio, é necessário expulsar a entidade de ocupação sionista, a destruição de Israel. Isso implica confrontar os governos árabes que o sustentam e lutar contra os Estados burgueses para impor uma Federação de Repúblicas Socialistas na região como forma estatal da ditadura do proletariado. É imperativo desenvolver a luta anti-imperialista nos EUA e na Europa, enfrentando os próprios estados imperialistas. Na Rússia e na China, devemos combater Putin e a direção contrarrevolucionária do PC Chinês, lutando contra a assimilação capitalista. Na América Latina, devemos enfrentar os principais apoiadores do imperialismo na região, os promotores do Escudo das Américas, como Kast, Milei e Paz, bem como os supostos progressistas que negociam uma posição melhor para suas burguesias na exploração de nossa classe, como Lula e Sheinbaum.

 

Em um cenário mundial marcado pelo declínio do equilíbrio preexistente e pela ameaça de uma guerra generalizada para estabelecer novas formas, provavelmente ainda mais brutais, de exploração capitalista, o proletariado mundial tem a palavra final. Será no terreno da luta de classes que derrotaremos os planos de extermínio de nossos inimigos. Reconstruir a Quarta Internacional, o partido mundial da classe trabalhadora, armado com a teoria-programa da revolução permanente, é a tarefa urgente para uma nova geração de revolucionários forjados no calor das duras lutas atuais. Nós, correntes trotskistas que defendemos o programa da ditadura do proletariado, devemos discutir como intervir nessa situação; para isso, reafirmamos o chamado para uma Conferência Internacional com caráter urgente.

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