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LULA VIRA NO 2º TURNO: É PRECISO ENFRENTAR A FRENTE AMPLA BURGUESA

5 noviembre, 2026

As eleições de 2026 expuseram a decomposição do bonapartismo sui generis no estado semicolonial brasileiro. A tarefa dos revolucionários é transformar a energia das ruas em luta com o programa, os métodos e independência de classe com independência de classe, e não em base de apoio para outro governo da Frente Ampla burguesa.

1. AS RUAS E AS REDES ENTRE OS DOIS TURNOS

Depois de terminar o primeiro turno com uma desvantagem de 2,2 milhões de votos, Lula venceu Flávio Bolsonaro por 51,79% a 48,21%, conquistando 10,4 milhões de votos à sua votação em três semanas. A recuperação, entretanto, não alterou o quadro político geral produzido no 1º turno, quando o PL conquistou 121 cadeiras na Câmara, e o bolsonarismo em conjunto assegurou um terço do Senado e seis governos estaduais. O PT conservou a Presidência, mas a oposição avançou no Congresso. A vitória de Lula com uma margem pequena de vantagem e sob um Congresso dominado pela oposição bolsonarista define um cenário de maior dificuldade para implementação de seus planos de governo, ampliando a débil governabilidade da atual gestão. A tendência, para o próximo período, é justamente o aumento da crise política entre os três poderes.

Ainda assim, a ideia amplamente difundida entre setores de esquerda de que a virada eleitoral e a reeleição de Lula representam uma vitória, ou o “mal menor” para a classe trabalhadora precisa ser rebatida a partir da análise dentro dos princípios classistas. É necessário examinar o que mudou entre os dois turnos, quais setores sociais se movimentaram e que possibilidades se abriram para uma intervenção direta e independente dos trabalhadores. A definição de uma política revolucionária depende dessa análise, não da adesão a um dos campos em disputa pela administração do Estado.

A novidade da eleição não esteve nas urnas, mas nas ruas e nas redes sociais. Em 5 de outubro, um dia após o 1º turno, uma assembleia de estudantes da Faculdade de Direito da UFF, em Niterói, se transformou em passeata contra o bolsonarismo. Em poucos dias, marchas e assembleias se espalharam por mais de quarenta universidades em quatorze estados e no Distrito Federal, ao grito de "Bolsonaro nunca mais", contra a anistia aos golpistas, pelo fim da escala 6x1 e em defesa da universidade pública. Em semanas, na Avenida Paulista, falou-se em algo perto de um milhão de pessoas. Ao votar, o próprio Lula admitiu: "nunca vi nada igual". Nas redes, essa mobilização ganhou uma expressão organizada com a formação do “Exército do Lula”, canal no WhatsApp criado pelo deputado federal André Janones (Rede), que bateu 11 milhões de “soldados”. Por meio de mensagens, áudios e “missões”, Janones convocava os apoiadores a compartilhar publicações, comentar conteúdos e promover hashtags, ampliando a circulação de mensagens favoráveis à reeleição de Lula.

Há que se levar em consideração o peso da máquina nas mãos do governo, que se viu obrigado a fazer concessões para tentar institucionalizar uma radicalização possível de setores do movimento de massas e pavimentar a virada. Entre os turnos, o Senado aprovou por 75 votos a 1 a PEC do fim da escala 6x1, promulgada em 16 de outubro. O governo já havia reajustado o Bolsa Família antes do primeiro turno e passou a prometer tarifa zero no transporte aos fins de semana. E, para disputar o eleitor bolsonarista em busca de "segurança", Lula foi à televisão defender a redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos. Concessões e reação nas ruas andaram juntas, com o mesmo objetivo, salvar o governo e a “democracia”.

A redução da jornada está atravessada por limites e contrapartidas. A Emenda Constitucional 141 prevê transição para 42 e depois 40 horas semanais, dois dias de descanso e sem redução salarial, mas admite regimes compensatórios por negociação coletiva e estabelece exceções. O próximo período será de batalha política superestrutural pela aplicação efetiva, contra à intensificação do trabalho e pelo reconhecimento dos precarizados. A medida favorece o assalariado formal e deixa de fora a massa de 37,4% de informais, entregadores e motoristas de aplicativo, para quem não existe escala alguma. O fato é que uma lei complementar ainda dirá como ficam as pequenas empresas. A redistribuição das horas fica a critério do patrão, terreno aberto à intensificação da exploração e à busca de produtividade.

No primeiro pregão da bolsa após a eleição, o Ibovespa caiu 13,88% e o dólar subiu 8,21%. A queda refletiu a expectativa de vitória de Flávio,   pelas frações burguesas ligadas ao capital financeiro e mais diretamente ligadas ao imperialismo, mesmo com todo aceno da austeridade do Lula 4.0.

Politicamente, porém, a turbulência reforça a pressão para que o governo demonstre fidelidade aos compromissos fiscais e siga as metas do teto de gastos. Dario Durigan, atual ministro da economia, anunciou propostas para perseguir o centro da meta de 2027: superávit primário de R$73,2 bilhões, contra R$36,6 bilhões no limite inferior. A diferença indica um esforço fiscal ainda maior. O resultado dependerá da arrecadação e das medidas adotadas diante de um cenário depressivo da economia mundial. A questão é quem pagará o ajuste? Os rentistas da Faria Lima ou os serviços públicos e os trabalhadores? O Exército do Lula/Janones estará no fronte contra os ataques da Frente Ampla burguesa?

2. A ELEIÇÃO EXPRESSOU A DECOMPOSIÇÃO DO ESTADO SEMICOLONIAL BRASILEIRO

As mobilizações foram uma expressão distorcida do descontentamento de amplos setores, sobretudo da juventude e da pequena burguesia. Há nelas algo de embrionário, mas sua espontaneidade não é, como num processo que caminha da semi-insurreição à revolução, "a forma embrionária do consciente" de que falava Lênin, no “Que fazer?”. Ela se explica antes pelo desaparecimento das mediações. O PT dissolveu-se numa coalizão eleitoral com setores burgueses, com Alckmin como vice e o Centrão nos ministérios, e com uma base social cada vez menor, principalmente de trabalhadores. Não foi o PT quem dirigiu as manifestações, ele cavalgou nelas, e Lula, ao reivindicá-las, já ensaia a ponte para convertê-las na base social que o partido perdeu há muito tempo. O mesmo esvaziamento das mediações atravessa a Europa, com a crise da social-democracia e de suas burocracias sindicais, onde se combina com processos de massas mais agudos. A instabilidade dos regimes é a regra da etapa.

Do outro lado, o bolsonarismo, mesmo que em crise, expressa o bloco social sintetizado nos três B’s “Bíblia, boi e bala” e as frações burguesas desses setores. Sua figura mais promissora é Tarcísio de Freitas, reeleito em São Paulo com 62,65%, que reconheceu o resultado e pediu uma oposição "vigilante". O clã se dispersa. Jair cumpre prisão domiciliar; Eduardo vive nos Estados Unidos com mandado de prisão aberto; Flávio recusou-se a reconhecer a derrota, descumpriu a ordem do STF de entregar os passaportes e fugiu para os EUA com visto concedido pelo governo Trump. O PL, por sua vez, reconheceu a vitória de Lula.  O bolsonarismo perdeu o caudilho de turno, mas tem o aparato das casas legislativas e os governos estaduais.

Abre-se assim um período de disputas entre as frações da burguesia representadas nas coalizões eleitorais encabeçadas pelo PT e pelo bolsonarismo para tentar reconstruir o regime e fechar a crise aberta nas instituições do poder. O caso do Banco Master, que a Polícia Federal descreve como a maior fraude já registrada contra o sistema financeiro, alcança do presidente do PP, Ciro Nogueira, ao próprio Flávio, que pediu R$134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. Nesse quadro, o Centrão cumpre papel duplo. Funciona como fator de estabilização do regime em sentido reacionário, vale lembrar que Motta e Alcolumbre passaram duas horas com Lula no dia seguinte à eleição para prometer "harmonia entre os Poderes” e, ao mesmo tempo, exibir o avanço de sua própria decomposição.

O próprio dia da votação expôs os limites da democracia burguesa e sua decomposição. Em São Paulo, em Salvador e em diversas outras cidades, apesar da obrigação de oferecer transporte gratuito, grande parte da frota de ônibus ficou nas garagens, impedindo um enorme contingente de eleitores de chegar às urnas. A crise dos ônibus foi “resolvida” por um ministro do Supremo, por cima do próprio TSE, com a determinação do adiamento em 2h do fechamento das urnas. Essa determinação só chegou aos locais de votação após o fechamento da maioria das urnas, causando desentendimentos e confusões nos colégios eleitorais,o que alimentaria a narrativa de fraude eleitoral, inclusive pelo trumpismo. O governo de Lula 4.0, será de Frente Ampla ainda mais ampliada, um bonapartismo sui generis ainda mais decadente, espremido entre o capital financeiro, o Congresso da oposição bolsonarista e do Centrão e as respectivas frações da burguesia por eles representadas e as massas que o reelegeram.

A intervenção do imperialismo esteve em pauta durante toda eleição. A crise no governo de Trump segue ampliando frente à inflação, ao endividamento público e à alta da taxa de juros. Chamou a eleição de "fraudada" e ficou isolado: os governos da região alinhados ao imperialismo cumprimentaram Lula, e um setor da burguesia brasileira se afastou para não ficar atado a um governo de perspectivas complicadas. Há que se deixar claro que a fraqueza de Trump não é a força da soberania nacional, tão propalada pelos ditos “progressistas”. A penetração imperialista não é um fator externo à eleição. Ela está na dívida pública que remunera o rentismo com um juro real perto de 9%, na conta de capital aberta que permite a fuga de capitais em horas, na pauta exportadora reprimarizada e nos "investimentos" em minerais críticos que o próprio Planalto acena a Washington.

3. COMBATER A FRENTE AMPLA BURGUESA A PARTIR DOS MÉTODOS DA CLASSE

Nesse cenário, o centrismo reafirmou sua política de adaptação total à democracia burguesa e chamou a votar em Lula. O PSTU marcou presença ativa nas ruas, fazendo campanha do vira-voto em estações do metrô e nos atos de rua, o MRT também atuou na defesa do “mal menor” também nas ruas e na política de “virar voto”, ainda que sem nenhuma declaração oficial, ou seja, a tarefa que colocou para a nossa classe de derrotar a “extrema direita”. De conjunto, um de seus argumentos foi a ingerência norte-americana a favor de Flávio, tratada como fator externo, como se a penetração imperialista não estivesse incrustada na economia do país e no programa do próprio governo. Foi justificada como uma tentativa de diálogo com as massas, mas que levou as mobilizações ao beco sem saída das instituições burguesas. A dinâmica é das ruas à urna, da urna à "governabilidade". As direções estudantis já avisaram que eleger Lula "não significa abrir mão das reivindicações", o que não passa de oportunismo, já que essas mesmas direções se somam às fileiras para “recuperar” uma base social volátil, já que são a tropa de choque do governo.

Os centristas ficaram submersos no voto em Lula. É preciso travar a luta política para avançar no debate com sua militância e com o ativismo que surgiu nas ruas, porque o próximo governo tentará recrutá-lo como base de sustentação. As oscilações das massas se combatem com programa. Essa é a tarefa dos revolucionários.

É evidente que as mobilizações nasceram das eleições, mas, uma vez abertas, a intervenção revolucionária deve servir para que um setor do movimento, no qual o proletariado atua de forma diluída, avance para posições de enfrentamento à burguesia e  suas frações políticas, e para mostrar que a saída nunca está ou estará nas eleições. Lula venceu, logo, é preciso fazer o enfrentamento ao seu governo.

A Frente Ampla burguesa Lula/Alckmin tentará se apoiar nos setores que se mobilizaram, não apenas para conter a reação da oposição no governo, mas também contra os setores organizados de trabalhadores que serão empurrados à luta. Os primeiros sinais já estão evidentes, a ordem aos ministros para não "explorar" a fuga de Flávio, a pressa em pacificar com o Centrão e a promessa de superávit. Por isso é fundamental combater o governo Lula a partir da luta pela recuperação dos sindicatos das mãos das burocracias que se tornaram parte da estrutura estatal, para que a classe operária rompa com as ilusões pequeno-burguesas na democracia burguesa. Nesse sentido, a tarefa que se coloca é erguer o Programa de Transição em seu sentido original, desorganizar a burguesia, golpeando-a no seu eixo de sustentação que é a produção e a circulação de capital, e forjar, nesse processo, a vanguarda capaz de superar a crise de direção revolucionária.

 

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